terça-feira, 11 de agosto de 2009

AS LÁGRIMAS DE CHICO


Acredito que os verdadeiros espíritas, ao ler a mensagem de Humberto de Campos, recebida pelo médium Arael Magnus em 8 de Janeiro de 2009 no Celest - Centro Espírita Luz na Estrada, terão muitos conceitos, atitudes à rever que hoje tomam em nome da divulgação e trabalho espírita.
É um texto longo, mas por favor, não deixem de ler.
Que você tenha uma semana repleta de muita paz.
Liziane Lacerda
Romeiros do Bem

Mensagem enviada por Humberto de Campos
09 de Maio de 2009

Descia, absorto, as escadas da escola, sem conseguir me aliviar do abalo que me causara aquela conversa com
Rubens, meu amigo . -”Não era possível”- vagueava comigo- “as pessoas não mudam; passam os
tempos, vêem os exemplos e os mesmos erros, com as mesmas cores, são repetidos...até quando...meu
Deus!”.Contara-me o bom Romanelli, que vinha de uma visita ao Alto, onde fora se reportar ao nosso meigo
Chico Xavier, sobre o andamento de alguns trabalhos encetados na esfera próxima ao planeta, relacionados com
educação pré-encarnatória. E o ilustrado professor mineiro, espírito brilhante, com fulgor conquistado em renhidas
encarnações, esmerilhado no esforço e agruras de passagens na Terra, estava nebuloso, abafado, visivelmente tomado
por melancólica emoção.
--Meu irmão e amigo-- dizia-me ele- O Chico está triste. Muito triste. Nunca o vira assim, tão lancinado pela
angústia, mesmo quando enfrentamos o negro episódio de 58, em Pedro Leopoldo! Acho que nem mesmo quando o
José, seu irmão, voltara ao reino dos espíritos, vi tanta tristeza naquele semblante... terrível...
-”É professor”- tentei amenizar- “as notícias da crosta não são animadoras. Maldade,
intolerância, guerras, miséria, incompreensão....deve ser por causa disso. O Chico sempre foi muito sensível”-
aduzi.
- Não é isso, meu irmão. Com a luz que possui e os conhecimentos que sempre transmitiu, ele sabe muito bem
que no processo de reestruturação dos que encarnam na terra, com algumas exceções, -dentre as quais ele se destaca-, o
atraso moral, as deficiências, os aleijões espirituais sobressaem, e não é de causar surpresa a quem conhece os
caminhos da evolução, esses quadros, que mostram o alcance da estupidez, do mal.
Percebi o professor Rubens contrito, circunspecto, como aquele que, tateante, procura caminho, saída, solução. E
prosseguiu:
-O Chico está sofrendo por ingratidão, dor profunda, segundo ele, causada por atitudes de gente nossa, de
gente espírita. Isso o deixa inconsolável, amigo, pois são exatamente aqueles com quem compartilhou a senda por 14
longos lustros.... 70 anos... são estes a causa agora dessa profunda amargura...
-Mas caro Rubens, -objetei- nosso Chico experimentou isso por centenas de vezes. Nós somos testemunhas
vivenciais de muitos desses flagrantes descaminhos, traições, decepções e malgrados de toda ordem. Ele sofreu isso,
sempre com serenidade, no entendimento fraterno da ignorância de quem praticava o erro...
- Meu caro irmão- interrompeu Romanelli- desta vez é pior...muito pior...
-Pior?- exclamei, questionando, surpreso com a superlativa entonação de meu experimentado e notável
interlocutor.
-Sim... trouxeram-lhe notícias da programação para a monumental celebração do centenário dele...
-Mas...isso, professor, sob a ótica comum, é mais que justo. Diria até necessário, é um preito de
reconhecimento... É o mínimo...
-Claro...claro...mas não da forma como estão querendo fazer....e é exatamente a forma, a maneira, o que está
produzindo sofrimento em nosso “Anjo Amor”. Imagine que estão elaborando gigantescas festividades. E
há brigas, disputas, questões comerciais e de marketing, grandes somas de dinheiro envolvidas. Briga de foice. Um
grupo quer erigir um hiper complexo em Pedro Leopoldo, com grandes pavilhões, construção de museus, departamentos,
fontes luminosas, cristalinas passarelas de acrílico com a mais alta tecnologia em luzes, laser e neon...(e suspirando...)
tudo isso com dinheiro da venda de livros, doações e dinheiro público, do governo. E cobrando ingresso, claro...
-É... parece que estou entendendo...mas é em 2010, não é?-dissimulei.
-Sim...mas grandiosos e potentes esforços já estão sendo envidados para o que o Chico chamou de “O
Circo do Chico”. Só que neste aí diz ele se sentir um palhaço, sem graça...
-Chiii...aliás, no dicionário xavier significa sem graça...-tentei aliviar a tensão, sem muito êxito.
E Rubens Romanelli retomou:-Saiba, meu irmão, que programam também para Uberaba outro estardalhaço de
igual ou maior envergadura. Além dos monumentos, dos bustos, dos museus, das praças e avenidas, haverá shows,
congressos, festivais, lançamentos...festa, muita festa...
- De livros?
-Sim, também...tem editora que está preparando obras especiais, com capa e letras douradas... melhor que o
outro “Parnaso” exótico, que fizeram....caríssimo... preço exorbitante, inacessível à maioria... Mera especulação
comercial. Estão também projetando o leilão de páginas psicografadas....vão sobrar chicos e fuxicos...
-É...estou entendendo, professor. Acho que essa dor que ele sente é semelhante à do Dr. Bezerra de Menezes
quando inauguraram a luxuosa sede em Brasília... com vidros fumês, e alabastros de fino material. Dinheiro de livro,
dinheiro da caridade...Na época, ouvi-o reclamando com o Bittencourt, que estavam fazendo dele, a “Bezerra de
Ouro”, num chiste.
-Pois é, meu irmão. Também Brasília deverá participar, com congressos mundiais, de gente de todo o planeta,
mais festas, museus, banquetes, grandes caravanas, buffets e griffes, patrocínios mil... Lançamentos de obras sobre a
vida, biografias, e tome mensagens louvaminheiras, compreende?
-Compreendo, professor -assenti- mais ou menos posso entender a dor do Chico. Ele, sempre avesso a estas
manifestações, sempre longe dessa idolatria, e mais, sempre próximo da gente humilde, sofredora, sempre consolando...
-Isso, irmão- concordou, continuando, mais exaltado- de gente simples, humilde, sofredora. Essa gente pobre que
hoje praticamente nem pode mais entrar na maioria dos centros, cheios de guardas e sistemas de segurança, alguns
luxuosos, que trazem a caridade na fachada, só. Outro dia estivemos fazendo um levantamento e descobrimos que nas
favelas, nos aglomerados, nos lugares bem pobres, quase não existem mais os centro-espíritas!.- E depois de longo
hausto, prosseguiu:-Me lembro com saudades dos bons tempos, quando ia com o Virgílio, Peralva, e outros, para
estruturar o “Divino Amigo”, na Vila dos Marmiteiros, ou do Santos, lá no Morro do Querozene, com a
“Casa da Betinha”, do Pedro Ziviani e do Badi, lá no Bom Jesus. Hoje mudou tudo, irmão...não é mais
assim...
-Concordo plenamente, professor. Tenho participado de reuniões e ouvido reclamações dos obreiros que agem na
Terra, que sistematicamente se referem à elitização da prática da doutrina. A começar pelo preço dos livros. Absurdo! Feiras
que dão desconto de 40 por cento! Ou estavam lucrando demais antes ou estão empurrando os encalhados...pífio
mercadejar!
-Sim... muitos se escondem atrás da necessidade da divulgação da doutrina para negócios no mínimo estranhos,
pior, sem escrúpulos. Das quase quinhentas obras do Chico, todas foram doadas, sem quaisquer ônus, para que as
editoras e fundações pudessem disseminar a palavra dos mensageiros. Mas, infelizmente, alguns fizeram um balcão
voraz onde a ganância, a cupidez, crescentemente se acentuam, dominam...
-Mas voltando ao Chico, professor, o que fazer pra ajudá-lo a sair desta?
-Olha, meu caro, não está fácil. A turma é indócil e não vai largar o filão altamente lucrativo, que hoje financia
construções faraônicas, banca viagens e caravanas de doutrinação e visitas ao exterior, com humildade nas palestras e
ostentação nas estadias penta-estelares. Em Belo Horizonte, próximo à favela que o bom João Nunes Maia ajudava, estão
construindo uma enorme e moderna edificação, da “Casa de Chico”. Milhões e milhões, vindos da venda
exorbitante das obras doadas. Um palácio arquitetônico. Um deboche à doutrina do Consolador! E claro, literalmente de
costas para o povo que sofre....
-É... professor... é uma situação realmente assustadora. É uma demonstração de indiferença diante de uma realidade
terrena cruel. Não se vê mais investimentos em campanhas contra o aborto, a eutanásia, a pena de morte, o suicídio, e
aos poucos as forças do atraso vão se apoderando. Até as reuniões estão escassas. Tudo está virando livraria. Mascontemporizei-
este é o mundo...
-Sim...caro amigo, este é o mundo. Mas a utilização do nome, do conceito e da vida do Chico para esses
expedientes é que é doloroso, sobretudo para ele. Se quisessem realmente homenageá-lo, deveriam estar
empenhados em minorar o sofrimento dos desvalidos, em ajudar na construção de lares com dignidade, na feitura de
casinhas. Talvez até de hospitais, beneficentes, ou de estímulos às campanhas, bucólicas mas importantes, como a dos
enxovaizinhos, de apoio às gestantes...aí sim, ele se abriria em sorrisos... ah! se o dinheiro que vão torrar com as
homenagens e estratégias de bajulação fosse aplicado nos orfanatos, numa escola profissionalizante...no amparo às
pessoas da rua... (suspira...)
-...O senhor sabe, prof. Rubens, -adverti- que reagirão com veemência, os que estão a preparar as bodas...e nos
acusarão de demagogos, etc e tal...com a assertiva repisada do “...pobres...sempre os tereis...”...
-Claro, nobre irmão...claro que sabemos disso. Forças das trevas fornecem argumentações bem elaboradas...
revestidas de lantejoulas e brilhos, para consagrar seus nédios feitos. Quantos foram à fogueira, aos martírios, sob o
guante de exponenciais explicações e justificativas ditas cristãs ?! Mas ai desses que pensam enganar o mundo...ai
desses que traem os próprios conceitos e consciências. Ai desses que fazem a dita “caridade de fachada”,
criando “obras” para dourar pílulas! Ai desses que fazem cair essa lágrima de Chico... Muito será pedido
a quem muito for dado... e a Doutrina de Jesus, sobretudo a Espírita, é a que mais ampliou nosso patrimônio de saber da
eternidade...daí...-concluiu.
Não pude deixar de perceber uma nesga de sofrimento nas palavras daquele espírito já tão elevado. Despedi-me,
bem emocionado, respeitando aquele momento que poderia chamar de ira santa. -Talvez ainda haja tempo de evitar o
mal maior- consolei-o, saindo.
Enquanto no horizonte a treva vencia a luz, anunciando o império da noite, matutei, tentando vislumbrar para
mim mesmo, explicações e caminhos, na esperada aurora. Acudiu-me a lembrança da última vez que estive com o
luminoso Chico, quando ele, feliz, comunicava estar aprendendo o idioma iorubano. Dizia o Apóstolo, que se preparava
para a tarefa de estimular a evolução da mediunidade, entre o pessoal das crenças afro-descendentes, na língua deles. -
”Eles tem a pureza no coração”-dissera. Acho que agora entendo melhor o porquê.

Mensagem recebida pelo médium Arael Magnus em 8 de Janeiro de 2009 no Celest- Centro Espírita Luz na Estrada-
Fundoamor- Fundação Operatta de Amparo e Orientação- Estrada Velha de Nova Lima 1275-Castanheiras- Sabará.

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