quinta-feira, 30 de julho de 2009

ESPIRITISMO: Uma obra que fala ao espírito



Por que o filme Bezerra de Menezes, sobre o médico e político que foi pioneiro do kardecismo no país, é um fenômeno nos cinemas?
MARTHA MENDONÇA
Movido por sua fé, o empresário Luiz Eduardo Girão conseguiu reunir recursos de empresas e profissionais liberais simpatizantes do espiritismo. Chamou dois profissionais da região para dirigir o filme: Glauber Filho (que não é parente de Gláuber Rocha), professor de Cinema da Universidade de Fortaleza, e Joe Pimentel, com experiência na área de filmes publicitários. Com orçamento restrito para um filme de época, a equipe deu ênfase às cenas de interior, com pouca ação, e tem elenco regional. “A participação de atores famosos como Carlos Vereza, Ana Rosa e Caio Blat teve remuneração simbólica e afetiva”, diz Glauber Filho.
O diretor considera que as filmagens, todas feitas em Fortaleza, no Recife e em municípios do interior do Ceará, foram cercadas de acontecimentos sobrenaturais. Segundo ele, chuvas torrenciais cessaram para permitir as gravações. Muito doente, um dos membros da equipe que não poderia trabalhar teria se curado repentinamente. A produção encontrou um cenário pronto, com móveis de época, num cartório do interior. Ao saber que era para um filme sobre Bezerra de Menezes, o dono do estabelecimento caiu em prantos, para depois explicar: adolescente, havia sofrido um acidente e o pai ficara na cabeceira de sua cama pedindo ajuda ao espírito do médico. “No dia seguinte, ele teria se levantado, já bem melhor”, diz Glauber. O ator Carlos Vereza conta que o médium baiano Divaldo Franco afirmou ter visto o espírito de Bezerra a seu lado durante a projeção de uma cópia preliminar do filme.
Na versão original, o filme misturava documentário com dramaturgia. No ano passado, foi apresentado num festival em Fortaleza e em outro em Cartagena, na Colômbia. O retorno foi semelhante: os espectadores gostaram mais da ficção que do documentário. Segundo o público, os trechos com depoimentos cortavam a emoção da história. Para satisfazer o gosto do público, todo o figurino foi alugado de novo e os atores convocados para mais um mês de filmagens. Nove novas cenas foram filmadas e acrescidas às já existentes – o que explica as falhas de roteiro. “Foi um malabarismo para adaptar o que já estava feito”, diz o produtor Girão. Já 100% ficcional, Bezerra de Menezes foi abraçado pela distribuidora Fox. “Projetamos vida longa ao filme, que abriu o tema espiritismo no mercado nacional e promete ser o primeiro de uma série com a mesma temática”, diz a diretora-geral da Fox no Brasil, Patrícia Kamitsuji.

Coincidência ou não, outras obras do cinema transcendental estão no forno. No começo de 2009, será lançado o documentário As Cartas, da diretora Cristiana Grumbach. A cineasta vai mostrar as histórias de famílias que dizem ter tido mensagens de familiares mortos psicografadas por Chico Xavier. Em 2010, virão As Vidas de Chico Xavier, uma superprodução adaptada do best-seller homônimo de Marcel Souto Maior. O produtor Bruno Wainer, da Downtown Filmes, comemora o sucesso de Bezerra de Menezes como prova de um filão de sucesso. “Estamos acompanhando esse mercado com atenção”, diz. O longa-metragem será uma parceria Sony-Downtown, a mesma de Meu Nome não é Johnny. O roteiro é de Marcos Bernstein, de Central do Brasil, e a direção de Daniel Filho. Para o mesmo ano, fala-se no mercado que Breno Silveira (diretor de 2 Filhos de Francisco) vai filmar uma produção adaptada do livro Ninguém É de Ninguém, de Zibia Gasparetto – autora recordista em livros espíritas no Brasil, com mais de 5 milhões de exemplares vendidos. Os direitos do livro Nosso Lar, obra apreciada entre os espíritas, também foram negociados pela FEB para virar filme, pelas mãos do diretor Renato Prieto. Escrito por Chico Xavier, supostamente psicografado pelo espírito André Luiz, o livro retrata um mundo pós-morte. Já vendeu mais de 1,5 milhão de exemplares.
O sucesso do tema religioso – e não só espírita – no Brasil já foi medido pelo produtor Diler Trindade. Em 2002, ele levou 2,7 milhões de espectadores aos cinemas para ver Maria, Mãe do Filho de Deus, uma história narrada pelo Padre Marcelo. O longa vendeu ainda 300 mil cópias em DVD – mais que o primeiro Homem-Aranha, lançado no mesmo período. “O Brasil é um país de místicos. Filmes com esse apelo podem arrastar multidões aos cinemas”, diz Trindade, que em 2010 lançará um filme sobre a vida de Jó, sábio do Antigo Testamento. “Vou agradar a católicos, evangélicos e judeus”, afirma.
LIÇÕES
Médica e cearense como Bezerra de Menezes, Eliane Oliveira diz que “as pessoas estão atrás de exemplos como o dele”
Nos Estados Unidos, a cultura transcendental conquistou espaço no cinema e na TV. Além do sucesso recorrente de produções inspiradas em passagens da Bíblia, foram campeões de bilheteria os filmes Ghost (1990), Sexto Sentido (1999) e Os Outros (2001). Na série de TV Medium, a personagem central psicografa mensagens que ajudam a desvendar crimes. O potencial é tão grande que a 20th Century Fox criou, em Hollywood, uma divisão intitulada Fox Faith, para co-produzir e distribuir filmes de temática espiritual. No Brasil, novelas como Alma Gêmea (2005) e O Profeta (2006) tiveram boas audiências. Em Três Irmãs, que vai ao ar atualmente pela TV Globo na faixa das 19 horas, um dos personagens, vivido por José Wilker, é um espírito que dialoga com sua viúva. O cinema brasileiro, porém, não costumava incorrer no tema, que foi inaugurado com pompa por Bezerra de Menezes – sem considerar o espírito de Vadinho, vivido pelo mesmo José Wilker no cinema na obra Dona Flor e Seus Dois Maridos, de Jorge Amado.
“Por esperar uma existência após a morte, a sociedade brasileira é espírita”, diz Roberto DaMatta
Para o antropólogo Roberto DaMatta, o filão tende a crescer por dois motivos: o primeiro é a necessidade que o espectador brasileiro tem de ver histórias positivas, de glorificação. Segundo ele, o cinema brasileiro, autoral, cujos grandes diretores são intelectualizados, “puxa o tapete do espectador” com a ênfase em pobreza, violência e drogas. “É importante pensar o mundo. Mas fica a carência de algo que encha o coração num momento em que faltam ética e solidariedade”, afirma. O outro motivo é a dimensão espírita presente em toda família. “A sociedade brasileira é espírita a partir do momento em que espera uma existência além da morte”. Para os kardecistas, a doutrina de Allan Kardec suaviza o drama da morte e ainda traz respostas para os acontecimentos da vida – com uma roupagem lógica, sem sacerdotes ou obrigações. O que se faz nesta vida, de bom ou de ruim, leva-se para outra vida, num auto-ajuste de contas que pode levar à eternidade. Ou, no mínimo, a um cinema próximo.
fonte:
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